
Fazendo sua estreia mundial no Fantasia Film Festival no dia 31 de julho, o curta-metragem Birdcall se passa em um cenário pós-apocalíptico tão familiar dentro desse subgênero, mas, ao mesmo tempo, trazendo diferenças interessantes relacionadas à infecção que relegou a humanidade a viver em complexos habitacionais isolados. Mas, de verdade mesmo, o assunto principal da obra é outro com o qual estamos bem acostumados: os relacionamentos tóxicos.
Dirigido por Justin Calandriello e com roteiro de Halle Kott, Birdcall começa com uma abertura bem-humorada, apresentada por um fantoche de dinossauro que se apresenta como Avery (Casey Marie Eckler). Com apenas 15 minutos de duração, o filme é esperto ao usar esse artifício para contextualizar o que é a doença e em que ponto a humanidade está.
Avery, que descreve aves como sendo seus antepassados, explica que, depois de a humanidade ter ido de mal a pior, ninguém mais cuidava das galinhas, e elas precisaram se virar para conseguir se alimentar. A partir daí, passaram a transmitir um vírus aos humanos através de bicadas e de fluidos, levando os infectados a experimentarem sintomas que começariam com simples irritações na pele, mas chegando à completa decomposição do corpo, facilitando, assim, que as aves comessem a gororoba que restou. No fim da explicação, o aviso: nunca saiam sozinhos de seus complexos.
Após a introdução passamos a acompanhar nosso casal de protagonistas, Jon (Sam Beaton) e Rosie (Vassiliki Gicopoulos), que saíram da segurança do complexo depois de uma briga entre a moça e seus superiores e estão chegando a uma cabana isolada. O que Rosie não sabe é que Jon está infectado e pretende testar em si mesmo um antídoto no qual vinha trabalhando no complexo, mas, claro, as coisas não saem como o esperado.

Birdcall se destaca ao mudar a trajetória que vemos mais tradicionalmente em filmes de infecção. Aqui, os doentes não se tornam zumbis ou algo que o valha, o destino é a morte, com a completa destruição do corpo. Assim, a princípio, a ameaça a Rosie não seria um Jon zumbificado, mas sim um namorado egoísta, que coloca sua parceira em risco enquanto brinca de descobrir uma cura para uma doença que já afeta o mundo há anos, afinal, por que não seria ele o cristal de luz responsável pela salvação da humanidade? E, conforme a infecção avança, em meio à grosseria de Jon, ainda o vemos se tornar cada vez mais grotesco, em um bom trabalho de maquiagem.
Em um ambiente pequeno, sem luz, muito do curta se desenvolve através dos diálogos dos personagens, suas discussões e ponderações. É em um desses que Rosie pensa sobre a vida dentro dos complexos, onde quem está dentro pode ignorar o que acontece do lado de fora, vivendo com uma (falsa) sensação de segurança, fugindo dos problemas externos. Essa é a vida que vale a pena, considerando o mundo que ainda existe do lado de fora? Desistimos dele?
Com um enredo simples, mas por vezes inventivo, Birdcall consegue tocar em diversas questões que afligem o mundo real todos os dias, aproveitando ainda o formato found footage para trazer o espectador ainda mais para perto desse universo. Um interessante exemplar dentro de um subgênero já batido, mas que ainda consegue surpreender.
Birdcall (2026)
Direção: Justin Calandriello
Roteiro: Halle Kott
Elenco: Sam Beaton, Vassiliki Gicopoulos, Casey Marie Eckler
País: Canadá
Birdcall estreia no Fantasia International Film Festival no dia 31 de julho.
