Nem todos somos providos de habilidades sociais, mas quais seriam as últimas consequências de navegar num mundo difícil de desenvolvê-las? É por esse caminho que a animação francesa Blaise (2026), nos leva através de diferentes pontos de vista dos personagens apresentados.

Blaise é um adolescente recluso que mente sobre a sua vida para não interagir em uma festa para qual foi arrastado, mas acaba num relacionamento com Josephine. Josephine é filha de um ricasso e mente ser ligada à política revolucionária se comprometendo à cometer atos de violência para agradar Blaise. O pai de Josephine é chefe da mãe de Blaise, que numa comunicação falha no meio de uma balada, acaba se tornando amante de uma de suas funcionárias. Mas o seu marido, pai de Blaise, entra numa jornada de provar aos outros que não é um bananão idiota e passa a ter comportamentos que comprovam essas afirmações.

Essas são descrições que podem até soar irritantes, mas o roteiro é tão competente que traz personagens críveis e humanos demais. Blaise vem para mostrar que não existe idade nem contexto social específico para o constrangimento. Estamos fadados a sermos humanos vítimas de uma evitação do desconforto que pode nos colocar em situações cada vez mais desconfortáveis.

Blaise (2026) | MUBI

Falando em questões humanas o filme faz questão de não deixar de lado o comentário crítico&politico, trazendo as dicotomia dos privilegiados com vergonha de admitir seu lugar de poder e também a luta de classe através dos protestos de quem lê o Manifesto Comunista e infelizmente trabalha polindo armário de armas de quem quer cada vez mais. Aponta o dedo em quem fetichiza e diminui a pobreza e o sofrimento, e também sobre o privilégio de quem pode jogar garrafa em polícia no protesto já que o dinheiro da família pode os livrar de tudo.

O próprio estilo de animação dá um toque peculiar ao que está sendo mostrado em tela. Com traços exagerados e até relembrando colagens, a vergonha alheia e a ambientação de Blaise traz a sensação de que é uma história que poderia ser replicada em qualquer lugar do mundo mesmo aqui, situado na França.

É necessário uma certa competência e sagacidade para levar o espectador a rir de nervoso mediante situações de abuso de poder sem fazer isso de maneira ofensiva. Quem assiste entra no ritmo dos personagens, um sorrisinho aqui, um pensamento de isso não é certo ali e no fim virar testemunha de um “leve” atendado terrorista.

Blaise | Rotten Tomatoes

Resultando em morte, divórcio, e um ciclo de escolhas erradas (ou falta de escolhas) que não se encerra, o filme consegue trazer humor com uma crítica que não é escrachada mas que incomoda nos lugares certos. Desde a escolha estética, até falas muito bem pensadas, é cheio detalhes coerentes que o torna uma pedra preciosa para os dias de hoje.

A animação independente está sendo exibida no Fantasia International Film Festival e além de original, tem o tempo certo que acaba no momento certo. Dirigido por Jean-Paul Guigue e Dimitri Planchon, o criador da história em quadrinho da qual o filme foi adaptado. Um prato cheio para os fãs do absurdismo e críticas sociais que não caem em desuso.

Blaise (2026) - IMDb

Nome: Blaise
Direção: Jean-Paul Guigue, Dimitri Planchon
Roteiro: Dimitri Planchon, Clémence Lebatteux
Elenco: Léa Drucker, Jacques Gamblin, Timéo, Nina Blanc-Francard
Ano de Lançamento: 2026

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