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O horror é um gênero que frequentemente subverte a ideia de que a maternidade é necessariamente uma bênção na vida de toda mulher, algo que traz somente alegrias. A imagem de mães sempre sorridentes e amorosas dá espaço a algo mais próximo da realidade, mostrando, muitas vezes através de metáforas, que nem tudo são flores, e permitindo que mães também possam se queixar, se entristecer, passar nervoso. O longa Nightborn, parte da programação do Fantasia International Film Festival, é uma dessas histórias, mas uma que deixa de lado qualquer sutileza.

O filme, cujo título original em finlandês é Yön Lapsi (algo como “filho da noite”, em tradução livre), é o primeiro em língua inglesa de Hanna Bergholm, que também dirigiu o elogiado Hatching, outro filme que trata de questões familiares, em 2022. Mas talvez “em língua inglesa” não seja a melhor descrição, já que o filme se passa na Finlândia e tem diálogos em duas línguas.

Aqui acompanhamos a finlandesa Saga (Seidi Haarla) e britânico Jon (Rupert Grint), um casal que está se mudando para a casa onde a mulher passou a infância, uma cabana na floresta aumentada, abandonada há anos, mas onde ela quer criar os três filhos que eles têm planejados. Os dois passeiam pela mata ao redor, onde Jon enxerga rostos e formas monstruosas em meio ao cenário de contos de fadas, e ali mesmo concebem seu primeiro bebê, pouco depois de Saga ensinar a Jon um ditado local: “como você gritar, assim a floresta responderá”. Meio entendedor já saberia que um desejo feito nesse lugar encantado seria realizado.

Nightborn 2026 (2)

O orgasmo de Saga se transforma em um grito quando uma transição nos leva ao parto da criança, uma explosão de sangue em close up. A reação da equipe de médicos não é das melhores, e quando, mais tarde, finalmente o bebê vai para os braços da mãe, temos o vislumbre de uma criança bastante peluda. Na volta para casa, algumas dificuldades começam a aparecer. O menino não para de chorar a plenos pulmões, uma mistura dos lamentos de uma criança com sons guturais animalescos. Saga quer amamentar, mas acaba muito mordida e machucada todas as vezes. Ela está exausta, e um Jon passivo que só faz dar pitacos sobre como a esposa deve fazer isso e aquilo só atrapalham ainda mais.

Mesmo assim, o casal recebe a família de Saga para uma festa em comemoração à chegada do bebê, mesmo que a casa ainda não esteja bem reformada, algumas paredes ainda estejam descascando e uma muda de árvore teime em crescer no chão do quarto da criança. A sobrinha faz cara feia ao olhar para o bebê (que permanece com o rosto escondido de nós durante todo o filme), as pessoas cochicham sobre o quanto ele chora. Na tentativa de se conectar com Kuura (um nome que parece ter sido cochichado pela floresta), Saga se arrasta com ele no chão, rosna, chega até a dar a ele sangue de vaca no lugar de leite, mas tudo o que recebe das pessoas ao redor é mais julgamento.

A questão com Nightborn é o limite. Não falo em limites de gore ou coisa do tipo, mas da constância com que uma personagem pode ser saco de pancada. Assistir a essa mãe sofrendo sem o apoio de ninguém acaba se tornando uma experiência cansativa. É por esse motivo, porém, que a personagem da mãe de Saga (Pirkko Saisio) se torna a mais interessante na trama, trazendo consigo uma boa dose de ambiguidade. Ela não aprova o fato de que a filha vai ficar 5 anos em licença maternidade para ter os 3 filhos desejados logo de uma vez, além de lembrar a Saga que ela deve se preocupar consigo mesma primeiro. Uma pessoa “moderna” ou, se pensarmos que ela criou duas filhas, negligente? Cabe ao público concluir, assim como nos cabe empatizar com Saga ou concordar com quem a julga (mas a primeira opção é a mais provável).

Nighborn nada mais é do que um exagero sobrenatural ao falar das dificuldades que um bebê apresenta aos pais de primeira viagem, e de como o maior peso fica nas costas da mãe. Considerada por familiares próximos uma pessoa difícil desde criança, Saga é agora vista como um monstro. E, quando tanta gente insiste na sua monstruosidade, talvez a melhor escolha seja abraçá-la.

Nightborn (2026)

Nightborn / Yön Lapsi (2026)
Direção: Hanna Bergholm
Roteiro: Hanna Bergholm, Ilja Rautsi
Elenco: Seidi Haarla, Rupert Grint, Pamela Tola, Pirkko Saisio
Em exibição no Fantasia International Film Festival

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