
As Ilhas Faroe são um cenário belíssimo, mas, ao mesmo tempo, bastante opressor. Se procurarmos por imagens do lugar hoje, o que encontramos são casinhas cercadas de uma grama verde sob o sol. Mas, na fotografia de Jacob Møller em No Rest For the Wicked, as ilhas são de um cinza que quase faz o filme parecer preto e branco. O clima correto para uma história que trata de vampirismo de um jeito bem diferente, mas tão bonito quanto o cenário em que se passa.
Dirigido por Kasper Kalle, o longa fez sua estreia mundial no 30º Fantasia Film Festival. Aqui acompanhamos um jovem faroês chamado Baldur (Egor Venned), que vive com sua mãe, Asia (Sofia Nolsøe), em uma pequena comunidade de pescadores, no ano de 1862. Um dia, navegando em meio à névoa, Baldur escuta alguém pedindo ajuda. Sem enxergar nada ao redor, ele acaba virando o barco entre pedras, bate a cabeça e é resgatado por Helge (Pilou Asbæk), um baleeiro perdido naquele lado da ilha.
Helge acompanha um Baldur bem ranzinza, talvez pelo ego ferido, até a casa do rapaz, onde fica para jantar e faz piadas à mesa junto com Asia. A casca grossa de Baldur, porém, não demora para começar a rachar, e o relacionamento dos dois, acompanhado pela beleza da ilha, chega a ganhar tons oníricos em diversos momentos. Para Baldur, a descoberta desse amor vem junto de uma mudança mais profunda: ele, que nunca viu uma árvore, passa a querer conhecer o mundo, e decide acompanhar Helge no próximo navio baleeiro que vai partir da ilha. Ele conta para Asia, mas acaba mudando de ideia quando entende que a mãe, viúva, não queria ser abandonada de novo.
O tom de No Rest For the Wicked muda quando uma tragédia acontece. Uma tempestade destroi o navio de Helge pouco depois da partida, e seu corpo é um dos recuperados na margem enevoada. Desesperado, Baldur faz uma oferenda de sangue ao mar, pedindo que seu amado volte. Se até aqui eu só falei em amor e beleza, chegamos na parte fantástica do filme, porque o pedido dá certo e Helge volta mesmo, mas diferente. A partir daí ele só aparece à noite, sempre procurando por Baldur, e se alimentando de uma dose saudável do sangue de seu amado. E, em uma pequena comunidade pesqueira, isso é motivo para alvoroço e medo.

A inspiração para No Rest For the Wicked vem do conto Manor, escrito em 1884 pelo autor alemão Karl Heinrich Ulrichs, um pioneiro no ativismo LGBTQIA+. Esse é só um lembrete de que o vampirismo serve há muito tempo como metáfora para quaisquer condutas que não se encaixam no padrão de normalidade definido por uma dada sociedade. Kasper Kalle e seu co-roteirista, Rasmus Birch, optaram por manter essa como uma história de época, mas é uma questão que permanece como um problema a qualquer tempo.
Mesmo se tratando de uma tragédia, o filme de Kalle não é uma exploração do sofrimento dos personagens queer, e o desenvolvimento de Asia é o que melhor representa isso. Ela demonstra interesse em Helge quando o homem aparece em sua casa, mas, ao perceber que o interesse dele era outro, fica em paz com a sexualidade do filho. Quando diz que não quer que Balur vá embora, não é por quem ele vai, mas por ela mesma não querer ficar sozinha. E, no final de tudo, é ela quem vai tomar a frente da comunidade para resolver as coisas, em um encerramento que faz todo o sentido dentro do tom em que essa história vinha se desenrolando.
No Rest For the Wicked trata de um amor proibido mais pelas restrições e responsabilidades impostas por uma vida e um local austeros do que pelo gênero de seus envolvidos, ainda que esse fato não seja totalmente descartado. O que temos como resultado é um filme que não tem pressa em contar uma história belíssima, onde conseguimos encontrar ternura e calor no que poderia se reduzir ao terror. E como é bom misturar essas coisas.

No Rest for the Wicked (2026)
Direção: Karper Kalle
Roteiro: Rasmus Birch, Kasper Kalle
Elenco: Egor Venned, Pilou Asbæk, Sofia Nolsøe, Héloïse Volle, Jóhannes Haukur Jóhannesson
