Dois amigos, Ricky (David Brown) e Tepper (Chase Williamson), estão voltando para casa depois de passar no mercado, caminhando por ruas calmas de Los Angeles e conversando sobre um tema que amam, cinema, quando veem algo inusitado: seis homens deitados no chão, lambendo o asfalto de forma muito sensual. A sensação é de que eles viram algo que não deveriam, uma brecha na realidade que deveria continuar escondida. A partir daí, a realidade de Ricky começa a ficar cada vez mais confusa.
E “confuso” é uma boa palavra para definir Sour Minnows, filme de Harrison Atkins que fez sua estreia mundial no Fantasia Film Festival. Mas não digo isso como se fosse algo negativo. Sour Minnows é um filme muito estranho, difícil de comentar (não vou nem tentar explicar), mas o que conta mais é a experiência de assisti-lo. A sinopse curta do IMDb descreve a situação de Ricky de forma profunda, dizendo muito e nada ao mesmo tempo: “Logo Ricky está olhando para sua vida a partir de ângulos impossíveis. E os ângulos estão olhando de volta”.

O que vemos em tela é um estado de completa dissociação de Ricky. Ele vê a si mesmo dormindo, sai pela porta de um banheiro de bar à noite e vai parar em um cômodo de sua casa de dia, coloca um filme na TV para assistir com Tepper sem perceber que, na verdade, os dois tinham acabado de assisti-lo. Algo parecido está acontecendo com Tepper e Aura (Suzanna Son), ficante de Ricky, mas cada um deles lida de formas diferentes com a questão, e toda conversa que eles têm sobre o assunto não faz sentido. Esse clima se estende ao espectador, mesmo no terço final, quando uma personagem que já passou por isso aparece com uma tentativa de explicação e ensina Ricky a conviver com essa nova realidade, uma vez que é impossível corrigi-la.
Atkinson faz um bom trabalho de nos incluir no enredo de seu filme, especialmente se deixarmos um pouco o absurdismo de lado para prestar atenção em quem são esses personagens. Todos eles tentam trabalhar com cinema, mas esse não é o trabalho principal de nenhum deles. O que Ricky faz “oficialmente” é revisar conversas de um chatbot de IA terapeuta, em um dia-a-dia que ele descreve como se fosse um estado permanente de dèja vu. Talvez por conta dessa rotina mecânica imposta pelo sistema é que Ricky reaja à sua nova situação com um pânico controlado e até com certa abertura. Afinal, se não tem como remediar, o melhor a fazer é abraçar o absurdo.

Sour Minnows é de um experimentalismo que não vai agradar todo mundo, mas sua abordagem do caos cotidiano de uma pessoa com quem é fácil nos identificar, adicionando tons de comédia e um horror cósmico sutil, pode ser uma experiência interessante a quem estiver aberto a senti-la.
Sour Minnows (2026)
Direção: Harrison Atkins
Roteiro: Harrison Atkins
Elenco: David Brown, Chase Williamson, Suzanna Son
