Para celebrar a abertura da 17ª edição do Festival Cinefantasy em São Paulo, tivemos o privilégio de conferir a estréia na América Latina do documentário Occupy Cannes! dirigido por Lily-Hayes Kaufman, sobre a produtora independente mais antiga e famosa dos EUA, a Troma, em sua tentativa de divulgação e busca por atenção em um dos maiores festivais de cinema do mundo, que ocorre anualmente na França.
Lloyd Kaufman é um dos pais fundadores da Troma, seguindo na ativa por trás e na frente das câmeras ao lado de Michael Herz. Ao longo do filme vamos entendendo o caminho trilhado pela produtora na arte independente de baixo orçamento com imagens e cenas de diversas obras que são mais ou menos conhecidas pelo público mainstream. Assim como trechos divertidos de diversas entrevistas e imagens de tatuagens de fãs com sua presença em feiras de cultura pop.

Neste novo capítulo da jornada, Kaufman profere sua ansiedade sobre o risco da extinção da produtora que parece sabotada e engolida pelo grande conglomerado midiático como vítima da indústria capitalista que controla o acesso e o holofote do que é arte. A ida para Cannes é para chamar a atenção de investidores e fazer negócios (dessa vez sem sangue e vômito) e até conseguir distribuição para o filme da época “Return to Nuke’Em High” (2017).
A arte independente está no espírito e nos valores: com a ajuda de fãs de vários países a equipe busca papelão e pedaços de madeira nas lixeiras para confeccionar à mão seus cartazes enquanto pagam grande parte de toda a viagem com dinheiro do próprio bolso. A hospedagem em apartamento pequeno onde cada um dorme num canto do chão, além do sofá.
Parte da dificuldade vem da própria polícia francesa que cheia de proibição e ameaças de prisão, encontra brecha pra tudo: não pode protesto de cunho político, não pode cartaz, não pode máscara, não pode homenagem. não pode smoking que não seja preto de gala. A equipe é constantemente hostilizada e expulsa de tudo ao redor do festival com argumentos ridículos como “estarem assustando os turistas”. Incluindo uma de suas manifestações sobre o casamento de um casal lésbico, já que a união homoafetiva era proibida na época. Em momentos são lidos como terroristas, Kaufman ri afinal se intitulam como apenas “anarquistas satíricos”.

O teatro de rua, as fantasias, o exagero e até a nudez, traduz a luta pela liberdade de expressão em criar a arte. Troma que muitas vezes foi depreciada por críticos com termos referentes ao nojo, à ofensa e não levada à sério, mostra que o amor ao cinema e aos valores sociais, sustenta uma vida longa de obras que não necessariamente precisam ser palatáveis ao público geral, mas que merece um lugar ao sol tanto quanto quem é apenas provido de dinheiro e moldado aos padrões ditados pelo filtro capitalista.
É de se admirar a união de todos aqueles que acreditam no trabalho da produtora. Quando conseguem exibir sua estreia em um dos cinemas ali por perto, mostra que a guerrilha não é apenas para promover o filme, mas trazer uma experiência de uma certa forma de participar de um festival de cinema para aqueles que não podem bancar um Cannes de smoking.
Ponto ilustrado da hipocrisia da indústria é quando Kaufman cita outros artistas que alcançaram um bom nível de fama, mas que negam ou fingem nunca ter passado/começado suas carreiras pela Troma. Por exemplo: Samuel L Jackson, os criadores de South Park, James Gunn, e tantos outros.
Occupy Cannes é um documentário sobre amor ao cinema. Mas como só amor não paga as contas para fazer cinema, ainda é possível ter personalidade enquanto se luta pelas oportunidades. A Troma continua defendendo do seu jeito, enquanto faz o seu mesmo que a valorização continue vindo dos seus. E mesmo que a indústria tente controlar e ditar o que é válido ou não, a produtora segue provando que mesmo de forma independente, vale à pena continuar lutando pelo que se acredita. Aos trancos, barrancos, censura, boicote e esnobe, mas vale.
Nome: Occupy Cannes!
Direção: Lily-Hayes Kaufman
Roteiro: Lily-Hayes Kaufman
Elenco: Catherine Corcoran, Lloyd Kaufman, Zac Amico, Doug Sakmann, Asta Paredes, Clay von Carlowitz, Bjarni Gautur, Lisbeth Kaufman, Liam Regan, Nico Praz, John Patrick Brennan, Nadia White
País: EUA
Ano de Lançamento: 2025
