Moeka é uma adolescente que se muda com o pai e a madrastra Hagino para uma nova casa. Ela se autoeduca estudando sozinha. Hagino é a dona de casa e esposa perfeitamente submissa. O pai está sempre trabalhando fora e tendo suas vontades atendidas. Como o comercial da família margarina sempre soa falso, detalhes mostram rachaduras nesta imagem. Que são ainda mais escancaradas após Hagino receber uma ligação onde Moeka pede apressadamente que volte para casa com três pedaços de bolo e uma Coca.
Somos apresentados à uma misteriosa garota vestida de trapos vermelhos chamada Chi-chan, que com sua grande tesoura em mãos, ameaça a paz e a vida da família e quem cruza seu caminho através da casa.
Voltado para a tensão de um terror psicológico de ritmo moderado, o filme traz elementos culturais popularizados da cultura japonesa que servirão de um brutal contraste para contar essa história. Como por exemplo a casa totalmente em cores neutras e extremamente arrumada, comidas simétricas demais, Hagino como uma esposa calada que deixou de trabalhar para servir ao marido, entre outros.
A crítica social é explícita começando com o casamento tóxico. Hagino não quer ter filhos, mas seu marido decide por si que sim, dominando sua nutrição, datas para transarem. Ela quer aceitar uma nova proposta de emprego para voltar a trabalhar com moda, mas ele acha melhor não já que ela precisa se dedicar a se tornar uma nova mãe. Após alguns confrontos ele decide trabalhar 100% remoto em casa para ficar de olho na mulher, tirar fotos para suas redes sociais e ter uma servente 24 horas. Claramente o abuso psicológico passa para o físico e descobrimos que esse era um padrão de comportamento ainda pior com a mãe de Moeka quando ainda viva.

Crueldade e dinâmicas de poder se transferem para Moeka e a garota Chi-chan, que apesar do trauma inicial ao se “encontrarem” acabam criando um vínculo de compreensão e validação da existência uma da outra. Quase como um recrutamento, Moeka vai direcionando seu ódio crescente ao pai conforme o percebe como verdadeiro vilão da história. O que antes era transferido para sua madrasta em formato de questionamentos como: por que simplesmente não fazer o que ela quer?
Em uma sociedade cheia de repressão voltada à uma imagem pública de educação e polidez, é nesse recorte insustentável que o filme de fato, se sustenta ao criticar. Os detalhes como as cores e suas representações pelos emocionais e camadas dos personagens, dá um toque especial à beleza deste filme, não apenas no âmbito visual.

O que no começo parecia nos levar para um lugar fantástico de fantasmas, nos empurra para os horrores sociais daquilo que não é visível. Representado por uma família, uma casa e uma menina de “espírito livre”.
Em paralelo, foi criado um mangá one-shot chamado “Toxic Daughter: Chi-chan” que complementa o que vemos no filme como um prequel feito pelo famoso mangaká Shuzo Oshimi. No terceiro ato do filme, a presença de Chi-chan aumenta junto com a tensão e ritmo da narrativa. A personagem é uma personificação de tudo o que é reprimido e explode sem filtros, manchando todos pelo seu caminho.
Com muito desconforto, pouco gore e zero sobrenatural, Toxic Daughter é um bom filme com temas atuais em que a jornada de assistir é melhor do que fica depois. Apesar de muito bonito visualmente, sua demora em detalhes pode fazer com que a história pareça mais uma como já vimos muitas vezes antes, sem nada de tão memorável que nos marque principalmente na história do cinema japonês.
O desfecho é satisfatório até certo ponto, prolongando-se para dar uma sensação de continuidade que não anima ou nos deixa curiosos. As revelações são previsíveis mediante contexto. Mas ainda é um filme que vale ser assistido pelo recorte sócio-cultural e os temas atuais abordados.

Nome: Doku Musume, (A Filha Tóxica)
Direção: Eisuke Naito
Roteiro: Eisuke Naito, Naruki Matsuhisa
Elenco: Aimi Satsukawa, Sera Uehara, Himena Irei, Terunosuke Takezai, Erika Mabuchi, Rimi Machida
País: Japão
Ano de Lançamento: 2024
