Toda vez que tento indicar a leitura de Devoradores de Estrelas, de Andy Weir (o mesmo de Perdido em Marte) a alguém, tento revelar o mínimo possível da trama. “Só confia em mim”, é o que costumo dizer. Quando os materiais de divulgação da adaptação cinematográfica do livro começaram a sair, foi a mesma coisa: “por favor, não veja os trailers, confie em mim”. É claro que eu não sabia qual seria o resultado, se de fato os realizadores fariam um bom trabalho, mas finalmente posso dizer que sim, fizeram. Aqui vou tentar revelar pouco dessa trama, e aviso quando chegar ao que já considero spoilers.
O filme começa com um homem (Ryan Gosling) acordando de um coma dentro de uma nave espacial, sem saber onde está, por que está ali, para onde está indo, nada. O homem descobre que seus dois companheiros de voo faleceram em algum momento da viagem, então ele está sozinho, no máximo com o computador de bordo pouco colaborativo da nave e um braço mecânico que o ajuda em algumas tarefas.

Devoradores de Estrelas intercala duas linhas do tempo. Enquanto o homem, cujo nome descobrimos ser Ryland Grace, tenta ligar os pontos dentro da nave, assistimos a flashbacks conforme ele vai se lembrando do que aconteceu. Grace é um professor de ciências no Ensino Fundamental, mas antes foi um biólogo molecular que caiu em descrédito depois de defender uma pesquisa julgada como absurda. Mas é justamente esse conhecimento que chama a atenção do governo quando o nosso sol começa a perder energia, o que vai levar o planeta ao colapso ao longo dos próximos 30 anos.
O que está causando a morte do sol é um microorganismo chamado de “astrófago”, que dá o título brasileiro ao filme. A tarefa de Grace é entender o que são os bichinhos para, junto com uma equipe de cientistas do mundo todo, chegarem a uma solução. Mas isso não explica por que um professor da escola primária foi o escolhido para essa missão, coisa que vamos descobrindo ao longo do filme, bem como em que exatamente consiste o plano.
Em uma entrevista, Andy Weir contou que começa seus livros pela ciência, e só depois é que vai pensar em uma história ao redor dela, incluindo, por último, os personagens. O resultado é um livro bastante focado nesse lado científico, com descrições minuciosas sobre o funcionamento do universo, do foguete onde Grace está, dos astrófagos, primando pelo embasamento em áreas como astrofísica e matemática.

Com duas horas e meia, Devoradores de Estrelas toma seu tempo para apresentar todo o contexto de seu enredo e de seu protagonista, sabendo escolher quanto desse embasamento científico incluir e quanto deixar de fora. Não é pra se assustar: eu, que sei muito pouco de ciências exatas, pude usufruir do livro sem problemas, e o filme consegue manter o que é cientificamente relevante no roteiro, sem exageros, equilibrando bem esses temas com a questão humana da história.
E muito do humano fica nas costas, é claro, de Ryan Gosling, que, além de passar boa parte do tempo sozinho na nave, também é uma pessoa muito solitária na Terra. O mais próximo que ele tem de amigos são Eva Stratt (Sandra Hüller), que está à frente do Projeto Hail Mary (o nome da missão), e Carl (Lionel Boyce), um segurança que acompanha Grace em seus estudos. E Gosling, que também é produtor do filme e assinou com o projeto antes mesmo do lançamento do livro, se sai muito bem aqui. Muito da graça do filme é ver uma pessoa comum, em uma situação inimaginável, tendo que se virar pra fazer as coisas darem certo, porque o custo de dar errado é muito alto, e todo esse processo tem seus momentos de humor, ação e drama. A fisicalidade é necessária, e Gosling dá conta do recado tranquilamente.

Devoradores de Estrelas é um blockbuster, mas boa parte de seu orçamento foi aplicada em efeitos práticos. Todo o cenário da nave Hail Mary foi construído de verdade, e o CGI entrou para melhorar os efeitos, não como base. Como uma pessoa que preza muito pelo artesanal (mesmo o artesanal milionário), para mim esse é mais um ponto que mostra que é um filme com coração, graças à combinação dos diretores Phil Lord e Christopher Miller (que não dirigiam um filme desde Anjos da Lei 2, de 2014) com o roteirista Drew Goddard (que também adaptou Perdido em Marte), tendo por base a obra de um cara que entende das exatas, mas sem esquecer das outras ciências.
E pra finalizar, se você viu os trailers de Devoradores de Estrelas, sabe que eu deixei de fora uma parte muito importante do enredo. Ciente do que aconteceria e sabendo qual foi minha reação ao ler o livro, fiquei bem decepcionada com os materiais de divulgação do filme, que já incluíram essa informação, sem necessidade. Daria pra vender muito bem esse trabalho revelando só uma pequena parte dele, que já é bastante coisa. Então, se você não sabe do que estou falando, não veja trailers, não procure por imagens, e cuidado com as redes sociais, porque o marketing do filme está bem forte. Mas vai por mim: se falei de um filme com coração, o que deixei de fora só vai reforçar ainda mais meu ponto.

Título: Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)
Direção: Phil Lord e Christopher Miller
Roteiro: Drew Goddard
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce, Milana Vayntrub, Ken Leung
Ano de lançamento: 2026
Devoradores de Estrelas está em cartaz nos cinemas.
