Há situações reais que são tão terríveis que necessitam de uma dose do fantástico para serem compreendidas por quem não as viveu. A escritora argentina Mariana Enriquez se utiliza muito do chamado realismo fantástico em sua literatura, contando histórias que incluem o mágico como uma extensão do real. Como um dos grandes nomes desse gênero literário atualmente, Enriquez foi uma das inspirações de Pedro Martín-Calero e Isabel Peña para escrever o roteiro de El Llanto (ou The Wailing, no título com que vem rodando festivais internacionais), filme que usa o sobrenatural para falar da violência estrutural contra mulheres.

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Em Madrid conhecemos Andrea (Ester Expósito), uma jovem que acabou de ingressar na faculdade e mantém um relacionamento à distância com Pau (Àlex Monner). As coisas começam a sair dos trilhos quando Andrea recebe dos pais adotivos detalhes sobre sua mãe biológica, uma mulher francesa que vivia na Argentina e que, após uma tragédia e uma prisão, acabou falecendo. A partir daí Andrea passa a ser assombrada pela figura de um idoso que só pode ser enxergado através de telas, além de ouvir um choro feminino doloroso, agoniado, que ela não sabe de onde vem.

Depois de contar esse recorte da história de Andrea, El Llanto dá um salto espacial e temporal para La Plata, Argentina, vinte anos antes. É lá que conhecemos a estudante de cinema Camila (Malena Villa), uma mulher que está tendo dificuldades em produzir um bom curta-metragem e que acaba ficando um tanto obcecada pela francesa Marie (Mathilde Ollivier), considerada pelo pai uma ovelha negra na família. Através das lentes de sua câmera, Camila enxerga um homem idoso sempre por perto de Marie, ao mesmo tempo em que também começa a ouvir o choro feminino vindo de um prédio, estranhamente igual ao que parece guardar o choro em Madrid.

Em seu primeiro longa-metragem, Martín-Calero ousa ao contar a história de El Llanto de forma não-linear, mostrando primeiro as consequências e depois as causas de um ciclo de violência que atinge mulheres de uma mesma família. Sem explicações em excesso, o diretor confia em seu público para montar esse quebra-cabeças, o que é sempre bem-vindo. É uma história que usa de metáforas sobrenaturais para falar de traumas geracionais e de como a violência contra mulheres traz reações de incredulidade de quem vê de fora, e muitas vezes até de quem sofre.

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El Llanto pode lembrar It Follows, no sentido da assombração que passa de uma pessoa a outra, e até se pensarmos em um terror que não é cheio de jump scares, mas sim de um suspense que se constrói aos poucos, aumentando o nível de tensão com o desenrolar da história, mas sem se privar de algumas cenas bastante impactantes. O filme ainda inclui um olhar mais metalinguístico, no sentido de que as câmeras enxergam o que não conseguimos ver a olho nu, como o papel que o cinema pode ter ao trazer à tona críticas a questões sociais.

Ainda que o filme trate apenas superficialmente de alguns temas (notadamente as adoções ilegais na Argentina), El Llanto conta uma história ao mesmo tempo tocante e assustadora, sabendo destacar suas protagonistas e apresentá-las como seres humanos completos, que vivem suas vidas, se divertem, se relacionam com outras pessoas, sem reduzi-las ao seu sofrimento. É isso que esperamos quando alguém quer contar nossas histórias, e é o que costumamos receber quando falamos no cinema fantástico espanhol e latino.

El Llanto já passou por diversos festivais pelo mundo e acaba de ser exibido no Canadá, na programação do Fantasia International Film Festival.

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Nome: El Llanto / The Wailing
Direção: Pedro Martín-Calero
Roteiro: Pedro Martín-Calero e Isabel Peña
Elenco: Ester Expósito, Mathilde Ollivier, Malena Villa
Ano de Lançamento: 2024

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