Gabriel é um pai de família aparentemente dedicado. Numa grande casa murada, isolando o contato com o mundo lá fora, divide teto com um casal de filhos adolescentes, uma menina e sua esposa. Ele sai todos os dias para vender veneno de rato enquanto sua família prepara o produto e seguem sendo seus prisioneiros. Não na visão dele, pois apenas está protegendo todos de que a sujeira e o mal do mundo os contamine.

Mas a maldade está mesmo neste protagonista que durante o filme se mostra uma pessoa cada vez mais detestável. Ditador e punitivista, trata sua família como um quartel, com regras extremamente rígidas que quando quebradas isola quem for num quartinho escuro trancado, além de agressões físicas, psicológicas e ameaças de morte.

El castillo de la pureza / Castle of Purity (1972) | Admit One Film Addict

Mesclando tempo de tela entre Gabriel e os outros membros de sua família, temos um filme extremamente bem dirigido. Tecnicamente e com um roteiro impecável, mostra jovens que transitam entre a inocência e o questionamento mediante o sofrimento e um crescente sentimento de que o que vivem é de alguma forma “errado”.

Uma experiência permeada de um desconforto constante, o longa mostra toda a sujeira da hipocrisia de um homem totalitário onde todos devem servi-lo mas que ao sair pelo portão procura sexo com prostitutas contrariando seus valores conservadores. Além de mentir aos outros, dizendo que mora sozinho no casarão. O foco aqui não é a claustrofobia do confinamento de um cenário insalubre mas o quanto a maldade crescente, sem culpa ou remorso pregada por um “bem maior” é tão palpável que não surpreenderia vermos isso acontecendo em tempos atuais. Não tão surpresa que o roteiro é baseado em fatos de um ocorrido na cidade do México. Em 1959, Rafael Pérez isolou sua esposa e seis filhos por 18 anos para protegê-los do pecado do mundo. Ele foi preso após um dos filhos conseguir pedir ajuda, mas continuava acreditando na pureza de suas intenções e autoeducação.

O Castelo da Pureza (1973) | MUBI

A realidade delirante criada por Gabriel se transcreve inclusive nos nomes dos filhos: Utopia, Porvenir e Voluntad. Claramente a falsa proteção e o perigoso conservadorismo hipócrita fazem este “castelo” ruir cada vez mais por dentro, aumentando a tensão e os surtos de um homem que perde o controle a cada detalhe.

O filme é frequentemente comparado com “Dente Canino” do diretor grego Yorgos Lanthimos. Mesmo podendo servir de inspiração, temos perspectivas diferentes. Ambas obras merecem o reconhecimento e causam um estranhamento crescente, sendo atemporais.

Prime Video: El castillo de la pureza

Por uma inspeção e proibição do veneno que possui elementos tóxicos, Gabriel é pego pela inspeção e obrigado a buscar uma falsa licença em casa. Que traz a grande revelação e a ameaça final de morte de seus filhos. Os vizinhos invadem o local com a polícia e o caos é apressado para sua prisão e encerramento da película.

Mesmo com um final meio corrido que acaba deixado um clímax morno, El Castillo de la Pureza é uma aula de cinema no quesito direção e roteiro. Também com boas atuações, cumpre seu propósito em nos incomodar e revoltar mediante o que nos é apresentado. O filme foi dirigido pelo mexicano Arturo Ripstein e lançado em 1972. Uma boa pedida aos fãs de thrillers, suspense que não devem dispensar o cinema latino que adapta como ninguém os horrores reais.

O Castelo da Pureza (1973) - IMDb

Nome: El Castillo de la Pureza (O Castelo da Pureza)
Direção: Arturo Ripstein
Roteiro: Arturo Ripstein, José Emilio Pacheco
Elenco: Claudio Brook, Rita Macedo, Arturo Beristáin, Diana Bracho, Gladys Bermejo, David Silva
País: México
Ano de Lançamento: 1972

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