Em 1972, o padre italiano Pellegrino Ernetti afirmou ter criado uma máquina, que ele chamou de “Cronovisor”, capaz de revelar imagens do passado através de ondas sonoras. Segundo ele, foi possível enxergar a crucificação de Cristo e ouvir o discurso do político romano Cícero. No fim de sua vida, ele confessou que nada daquilo era real, mas sua afirmação pode ter vindo de uma pressão do Vaticano para que o Cronovisor nunca chegasse às mãos erradas.
Com base nessa história real, a dupla de diretores estreantes Jack Auen e Kevin Walker fez seu Chronovisor, um longa que se parece com um documentário, mas não é. O filme traz Anne Laure Sellier, uma acadêmica na vida real, interpretando Béatrice Courte, pesquisadora e professora de Filosofia na Universidade de Columbia, que se depara com a história da máquina e mergulha em uma investigação para descobrir se ela existe mesmo, uma jornada solitária que vai afetá-la profundamente.

Chronovisor é um filme bastante experimental, com estilo bem único. A forma como Béatrice é filmada mostra seu afastamento das outras pessoas. Raramente vemos outros rostos com clareza, seus interlocutores na universidade estão sempre fora da tela ou à distância. Béatrice parece muito mais confortável quando está acompanhada dos objetos que ajudam na sua investigação do que quando está com seus pares.
Auen e Walker têm uma forma bem interessante de nos mostrar o que a professora está estudando: Béatrice conversa por telefone com pessoas que podem saber sobre o Cronovisor e o paradeiro do padre Ernetti, ouve fitas cassete com gravações antigas de pessoas envolvidas com a máquina. Mas o mais especial é o que Béatrice lê. Com luzes quentes e imagem granulada de uma filmagem em 16mm, vemos livros, jornais e revistas que Béatrice lê em diferentes línguas, mas a imagem destaca e traduz para o inglês as passagens que os diretores querem que o público leia também. É uma técnica que aproxima o filme de um audiodrama, aumentando a imersão do público nesse mistério.

Ao longo das investigações de Béatrice, ouvimos sobre a preocupação de Ernetti e de outros envolvidos com o segredo do Cronovisor sobre os perigos da máquina, como o risco de que as imagens que ela revela se misturem com as memórias de quem as vê. Muito se fala também sobre a possibilidade do fim da privacidade caso uma tecnologia assim se espalhe, mostrando que, por mais que se trate de uma obra analógica, o Cronovisor conversa com as tecnologias e ideologias atuais. Alguém até levanta a possibilidade de que a máquina se torne compacta, algo que se pode levar no bolso – uma conversa bem familiar.
Chronovisor termina com imagens enigmáticas e sons estranhos, causando uma sensação bastante perturbadora e deixando para o público a interpretação do que estamos vendo. Com ritmo lento, mas sem nunca deixar de ser cativante, o filme traz temáticas interessantes (quem não gosta de uma boa conspiração católica?) para um formato muito diferente, garantindo sua marca no cinema.

Chronovisor faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Chronovisor
Direção: Jack Auen e Kevin Walker
Roteiro: Jack Auen e Kevin Walker
Elenco: Anne Laure Sellier
Ano de Lançamento: 2026
Visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
