Um pesadelo vívido, pouco coerente e muito significativo: assim é o filme canadense “No Longer Humans”, de 2026, produzido de forma independente, e dirigido por Luca D’Andrea. No longa, ambientado em uma realidade distópica onde o evento da morte já não é mais o desfecho para a humanidade, acompanhamos o jovem transsexual Baron e, em paralelo, um grupo de jovens amigos, que, em uma madrugada refletem sobre vida, morte, e exploram a cidade.
O filme é extremamente atmosférico e consegue transportar o espectador para uma única madrugada em que os acontecimentos se desenrolam de maneira não linear e completamente psicodélica. A sensação de claustrofobia é constante, reforçada por uma linguagem visual altamente estilizada, marcada por cores neon, tons saturados e estourados e imagens em negativo. Essa estética faz parte da própria proposta do filme: construir uma linguagem que só pode ser plenamente compreendida por aqueles que já não se reconhecem como humanos, como se estivéssemos diante de uma perspectiva ciborgue da realidade.

Essa escolha estética também se articula à principal metáfora do filme, que aborda a condição das pessoas queer em um mundo heteronormativo e como a invisibilidade e a incompreensão afetam não apenas a construção de suas identidades, mas também o reconhecimento de sua própria humanidade. Isso fica evidente por meio de Baron, que passa a se enxergar cada vez mais distante do que entende como humano. Ao longo da narrativa, esse processo se intensifica até culminar em um frenesi no qual sua própria existência se torna uma questão para si mesmo.
Junto a isso, os elementos tecnológicos utilizados para construir um futuro distópico dão o tom de que o que resta é a dor e o peso de continuar existindo, sem que haja necessariamente um sentido para a vida. A premissa se conecta à experiência de milhares de pessoas que, fora da ficção, enfrentam diariamente uma realidade que deslegitima suas identidades e impõe opressões sobre seus corpos, especialmente aquelas que não se enquadram nos padrões heteronormativos. É por meio do exagero visual e da construção de uma realidade fantasiosa que No Longer Humans procura traduzir essas experiências.
A narrativa não linear, nesse sentido, funciona menos como um obstáculo à compreensão e mais como um recurso coerente com a releitura que o filme propõe. Ainda que conheçamos pouco dos personagens além de Baron, o grupo de amigos que sai à noite para explorar a cidade e atormentar algumas almas funciona como uma espécie de antagonista coletivo do protagonista. O que sabemos sobre eles é a fascinação pela tecnologia e o vazio que atravessa suas existências, acompanhados de uma tentativa de encontrar, por meio da criatividade, novas formas de atribuir sentido à vida.
Há, porém, uma diferença fundamental entre o sentimento de inadequação desses personagens e o de Baron. Para o grupo, o vazio parece decorrer principalmente da ausência da morte e da consequente perda de sentido da existência. Para Baron, essa questão é anterior a essa realidade distópica: trata-se de um conflito mais profundo, relacionado à própria identidade e ao modo como sua existência é percebida e reconhecida pelo mundo.
No fim, No Longer Humans é um comentário necessariamente incômodo sobre como nossas identidades podem ser esvaziadas quando a realidade impõe opressões sobre nossos corpos. Embora recorra à ficção científica, ao exagero estético e a uma realidade aparentemente distante da nossa, o filme constrói uma perspectiva assustadoramente próxima daquela vivenciada cotidianamente por pessoas cujas identidades são constantemente questionadas. Sua fantasia, nesse sentido, não afasta o espectador da realidade: torna visível a violência que já existe nela.

No Longer Humans
Direção, Roteiro e Edição: Luca D’Andrea
Elenco: Jadein Forteau (como Baron Diaz), Ada Smiths e Callum McAllister.
Ano de Lançamento: 2026
Visto no Toronto After Dark Film Festival 2026
